Si bien toda literatura escenifica espacios que son del orden de lo imaginario, la literatura producida en contextos de violencia de estado presenta espacialidades con características diferenciales, propias y específicas. No "crea" espacios sino que se "apropia" de ellos y en especial problematiza la dimensión privado-público a partir de estos. En este trabajo se aborda dicha problemática a partir de dos producciones literarias que giran en torno a topografías del terror y que fundan políticas concretas de militancia social de resistencia y políticas de reconstrucción de memorias históricas en ese meridiano tensado entre Paraguay y Brasil. En primer lugar, se aborda la pieza teatral 108 y un quemado (2002/2010) de Agustín Núñez. Allí lo que ayer había sido el espacio urbano como teatro del horror y el agravio en el Paraguay de Stroessner, hoy se transforma en calle-teatro de la acción política. Ese texto se constituye como denuncia de las aberraciones que la población homosexual asuncena padeció a mano de la dictadura paraguaya -conocida con el nombre de stronato (1954-1989)- por primera vez en 1959, en el espacio público de la ciudad de Asunción. En segundo lugar, se trabaja con el poemario Clamor elemental (1971) del obispo de los pobres, Dom Pedro Casaldáliga, que se convierte en una excusa para revalorizar el componente vital del espacio amazónico y de sus habitantes -los indígenas Xavantes y Carajás- y denunciar el saqueo silencioso y violento perpetrado por el gobierno de facto brasileño (1964-1984) con el afán de "modernizar" la región.
While all literature stages spaces that belong to the realm of the imaginary, literature produced in contexts of state violence presents spatialities with distinct, unique, and specific characteristics. It does not "create" spaces but rather "appropriates" them, and in particular, it problematizes the private-public dimension through them. This work addresses this issue through two literary productions that revolve around topographies of terror and that establish concrete policies of social activism and resistance, as well as policies of reconstructing historical memories in that tense region between Paraguay and Brazil. First, it examines the play 108 and a Burned Man (2002/2010) by Agustín Núñez. There, what was once the urban space as a theater of horror and injustice in Stroessner's Paraguay is transformed into a street-theater of political action. This text serves as a denunciation of the atrocities suffered by the homosexual population of Asunción at the hands of the Paraguayan dictatorship—known as the Stroessner regime (1954–1989)—first appearing in 1959 in the public spaces of Asunción. Secondly, the text engages with the poetry collection Clamor elemental (1971) by Dom Pedro Casaldáliga, the bishop of the poor, which becomes a pretext for revaluing the vital role of the Amazonian region and its inhabitants—the Xavante and Carajá indigenous peoples—and denouncing the silent and violent plunder perpetrated by the Brazilian de facto government (1964–1984) in its quest to "modernize" the region.
Embora toda literatura encene espaços que pertencem ao domínio do imaginário, a literatura produzida em contextos de violência estatal apresenta espacialidades com características distintas, únicas e específicas. Ela não "cria" espaços, mas sim os "apropria", e, em particular, problematiza a dimensão público-privado por meio deles. Este trabalho aborda essa questão por meio de duas produções literárias que giram em torno de topografias do terror e que estabelecem políticas concretas de ativismo social e resistência, bem como políticas de reconstrução de memórias históricas naquela região tensa entre o Paraguai e o Brasil. Primeiramente, examina a peça 108 e um Homem Queimado (2002/2010), de Agustín Núñez. Nela, o que antes era o espaço urbano como teatro do horror e da injustiça no Paraguai de Stroessner se transforma em um teatro de rua de ação política. Este texto serve como uma denúncia das atrocidades sofridas pela população homossexual de Assunção nas mãos da ditadura paraguaia — conhecida como regime Stroessner (1954–1989) — que surgiu pela primeira vez em 1959 nos espaços públicos de Assunção. Em segundo lugar, o texto dialoga com a coletânea de poemas Clamor elemental (1971), de Dom Pedro Casaldáliga, bispo dos pobres, que se torna um pretexto para revalorizar o papel vital da região amazônica e seus habitantes — os povos indígenas Xavante e Carajá — e denunciar a pilhagem silenciosa e violenta perpetrada pelo governo de facto brasileiro (1964–1984) em sua busca por "modernizar" a região.